quarta-feira, 18 de maio de 2016
Família de comercial de margarina: existe?
Sou mulher, negra e nasci numa família 90% branca e racista(de forma velada, é claro). Desde pequena, eu era a ÚNICA prima negra(ou a considerada mais escurinha) entre todos os primos. Os apelidos eram sempre depreciativos e eles vinham de quem eu menos esperava, eles vinham de minha família(pessoas que aprendemos na escola e que o mundo diz que são quem deve nos dar suporte, nosso aconchego). Cresci longe de meu pai(negro), ouvia familiares maternos depreciarem a imagem de meu pai por ele ser negro, enquanto eu ainda aos 3 ou 4 anos de idade dizia em alto e bom som e com orgulho, que eu era pretinha como meu pai. Minha mãe, branca, criada numa família conservadora e branca, me repreendia e dizia: "você não é preta, menina! você é morena!". Mas eu não me via assim. Me lembro como hoje, quando fui perturbada dentro do transporte escolar na volta pra casa por outros colegas(também negros, veja só) que eu era tão preta que até a minha boca era escura e que isso era muito feio. Me lembro de chegar na porta de casa e não entrar, por vergonha. Sentei na escada da frente de casa, abaixei a cabeça contra os joelhos e chorei. Chorei por não entender esse ódio, essa vontade de apontar o dedo pro outro e ditar o que é feio e o que é bonito ainda mais pra uma criança. Foram tantas as ofensas que eu ouvi "você é feia", "você parece um macaco", "olha só que menina feia". Sentia a tristeza de minha mãe ao ver que mesmo tentando me arrumar como uma boneca francesa eu nunca arrancaria os elogios que as sobrinhas brancas dela arrancavam dos irmãos. Por muito tempo eu me senti assim...cresci me achando inferior, me achando feia, menor que os outros. E ainda outro dia ouvi um tio dizer que a cultura de usar turbantes era horrível....que cultura feia, ele disse. E eu discordei, disse que era minha cultura, que era linda. Depois que cresci isso só continuou...ainda ouvia as piadinhas de racistas que não tinham culhões pra me dizer com seriedade o que eles realmente achavam, só que dizendo rindo achavam que estavam amenizando a ofensa. Ao contrário de quando era pequena, agora me vejo com voz, agora eu retruco, me defendo, NÃO ACEITO. Não quero ser melhor que ninguém, mas também não sou pior. Superei as críticas que me fizeram e hoje eu me elogio, eu olho no espelho e sei que sou bonita, não preciso que ninguém me diga isso. Se você passa por isso também, menina...resista. Não existe só um tipo de beleza. Não existe só um tipo de nada, nem de opinião, nem de mundo, nem de visão. Você pode fazer o que quiser com seu corpo, com seu cabelo, com suas ideias e ideais. Continue lutando pela liberdade de ser quem você quiser ser. Querem nos desacreditar, mas há muito tempo nós já somos livres. Repito: Somos livres! Obrigada Emicida por reiterar isso, obrigada Karol Conka, obrigada Djavan, Carlinhos Brown e Milton "Bituca" Nascimento por me apoiarem através de suas músicas e me fortalecerem ainda que de longe.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário